Sinto a tua falta

Esta noite, no intervalo de uma contemplação pensativa da suave penumbra que se deixava escorregar pela claridade do dia primaveril que se fez sentir, os meus gastos olhos lembraram-se de ti. Não creio ter sido pela sua frágil condição.
Um pedido de desculpas era tudo quanto te devia e foi tudo quanto te pude dar.
Por tal pobreza, perdoa-me escolher a hipótese de, por fim, poder viver uma agradável representação do que poderá ser o amor, de um Universo de hipóteses em que a tua angústia estaria presente e bem erguida em todas elas.
Perdoa-me por ter escolhido o amor defronte de outro mais ligeiro e naturalmente mais saudável, por falhar neste encargo de sobrevalorizar a amizade: o amor mora no meu coração e corre-me nas veias; o pior, temo não ser a única.
Num mar de falhanços, perdoa-me agora por não conseguir faltar à aventura, por obedecer tão estritamente a quem me impõe um desafio, pelas raras ocasiões em que estes comigo se cruzam.
 Perdoa-me por tudo isto, que eu te perdoarei o resto. Dou por mim vezes sem conta a divagar sobre este assunto. Sinto a tua falta.


À conversa

     Procuro sempre pelas melhores perspetivas da minha recente condição, nunca me esquecendo de avaliar todas as hipóteses que tenho diante de mim, servindo-me tal precaução de uma ótima estrutura, organizada, da minha linha de pensamento; emergem todos os meus princípios que foram levados a cabo, sem nunca fugirem das águas claras, incitando toda a minha motivação que reside nos meus desafios.
     Omito à minha consciência, porém, que a maior partida que a vida me trás sou eu própria. Passo os meus tempos mortos a indagar o meu destino, a calcular possibilidades, a prever e a preparar-me para o que possa decorrer, quando a honesta verdade é que, da minha parte, também se podem erguer inquietações, também posso eu corromper aquilo que mais prezo.
     A minha sorte é o desafio que me impões. Mas, apesar de transcenderes quaisquer das indesejáveis probabilidades que proponho, não apagas este receio, que destemidamente tolero, das minhas próprias disposições, convencida eu de que me conheço. E ainda bem que assim é. Mantém-me desperta que tudo correrá bem.

Se nunca poderia ser teu, porque não ser meu?

     O que me ofende não é a forma como te estás a sentir. O que fez saltar o desespero dos meus olhos não foi o que eu já te estava a prever. O que deixou escapar a minha indignação não foi o sentimento daquilo por que já passei mas a tua representação dele mesmo.
      Se me desses tais palavras na cara, na agitação da minha confissão, embora também me entristecessem, eu compreenderia a tua frustração como se sempre tivéssemos vivido numa empatia mútua. Mas tais palavras acompanhadas do lugar onde te encontravas, só me remetem para a humilhação, não só vinda de ti mas também te todos aqueles que te seguem e que te sugerem.
     Alguém me deu a dádiva da retidão, quer esta esteja de acordo comigo ou com outrém. Mas mais à superfície, encontra-se o egoísmo humano: duvido que haja alguém capaz de colocar a felicidade de outros defronte da sua própria, exceptuando a felicidade daqueles que ama incondicionalmente. Partindo de que ninguém tem tal faculdade, não me podes acusar de imoral, pois de todo este conflito escolhi a opção que maior felicidade proporcionava. Visto que a dos três era algo inatingível, sendo em especial a tua de difícil alcance (para não dizer impossível como resultado deste dilema), vale mais a felicidade de dois do que a angústia de três. Contudo, o meu agir em conformidade com meus próprios interesses, por coincidência correspondente à solução mais agradável, pesa-me na consciência; sinto-me tentada e incapaz de ceder à minha antiga existência no mundo. Os meus pêsames opõem-se à justiça, mas não a derrotam. Não me sinto criminosa de um saqueamento, não queiras anunciar como teu aquilo que há muito que não te pertence.
     Ponho-me na tua posição, revivendo estares indesejáveis, entendo a tua raiva e desconsideração até ao ponto em que a senti. Avaliando a situação imparcialmente, eu sofri em silêncio a minha desventura, terei arrumado e guardado toda a fúria e ódio dentro do meu estômago e dos meus pulmões, até que esses pesares fossem aniquilados e expelidos pela resignação, como se de um golpe de ar residual se tratasse. E bem podes crer que funciona, a raiva é uma emoção passageira, e logo se vai dissipando. Tendo em conta mais do que a preocupação comigo mesma, nunca te dedicaria tais palavras, que ferem, que me ressentem e que me desgastam e tiram o apetite. A tua pureza e a tua amigável natureza acabaram de fugir da minha base de ferramentas dos conceitos.
     Não esperava isto de ti. Não esperava que mo exibisses e que mo fizesses questão de exibir, esperava apenas que o sentisses e que, quanto muito, o deixasses transparecer. Pedes-me coisas que nem tu sabes fazer.
     "Adeus, boa sorte, vais precisar".

Glasshouse


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     Os avisos revelam-se insuficientes (ou talvez até sejam eles bastante plausíveis); está dito, por mais que me alarmem das consequências que lucrarei, e por mais receosa que eles me tornem, e por mais dispersante que façam do meu pensamento, a minha hesitação varre-se imediatamente, assim que os meus olhos te encontram.
     Cada passo que se acuse como mais um pedaço invadido no teu território, leva-me a sentir como se estivesse prestes a derramar um copo, ou uma jarra, ou uma escultura de valor. Interpretar-te tornou-se o enigma que mais me motiva a decifrá-lo.
     Confesso, tenho alguma intimidade guardada, frouxa, encerrada em casa, porque assim a tornas, quando te apresentas com as tuas excentricidades. Por isso, corro o risco que me entendas como submissa.
     O meu instinto era o de comportar-me com veemência, entregar-me ardorosamente, mas contenho-me por considerar a hipótese de me julgares excessiva num desses ímpetos imaginários: ou que sejam, esses, contraproducentes.
     Reconheci o momento em que os teus olhos mudaram; ligeiramente inclinaste a cabeça, enquanto proferias sussuros que mal os sei. Sei-o de cor. Reconheci-o. Guardo-o.

Espero não cair; espero que não caias. Devo apenas acrescentar que, repentinamente, a escola tornou-se mais vermelha.