Escassez de expressão

     Ao falharem as palavras, empenham-se os olhos, que, numa impetuosa absorção, apreendem aquilo com que a mente se entretém e se ofusca. Mas os olhos rapidamente se declaram inábeis e arremessam súplicas de auxílio para todo o resto que nos foi dado - lançam a batata quente para o tacto.
     O tacto, timidamente, vai soltando os seus serviçais, um braço, outro braço... a pouco, a medo, vai se entranhando, deixando a nu a sua sujeição. Mas os braços, experimentando freneticamente e esgotando as suas aprazíveis e meritórias aptidões, rapidamente se declaram pouco engenhosos, de imaginação débil, e depositam desesperadamente confianças naquilo que os seguem, apressam todo o corpo, que balança ao sabor da comoção.
     Mas todo o corpo, enfastiado das suas oscilações dessincronizadas, rapidamente se declara insaciável, todo envolto numa insatisfação desvairada. Volta-se, assim, para onde tudo começa. Sem que lhe peçam, como se tomando o controlo de todo um alvoroço infernal e desregrado, os lábios confessam a sua faceta mais doce e silenciosa.
     Mas os lábios, esses sim, não se declaram nada mais do que sublimes, tranquilizantes da agitação acomodada, indo espalhando um equilíbrio onde todas as peças, sempre escoltando quem as salvou, se emocionam numa coordenação harmoniosa. As suas voltas não são mais solavancos, são antes aragens macias, ondas deliciosas, ora rápidas e confusas, ora calmas e acolhedoras.

Contemplando o íntimo do meu coração

     Regressavas, numa aparição perfeitamente inesperada, mas ao mesmo tempo tão certa e prevista, tão sabida, que acometia toda a minha aparente convicção de que não voltarias. Regressavas, e tudo o que eu pedia e murmurava era que não me roubasses o coração. Ia repetindo e interiorizando todas as palavras, afligindo-me, dando-me conta de uma revelação ironicamente tardia, contudo, condescendia um sorriso, que não se conseguiu omitir.

     Embora todo este enredpressupusesse um furacão na minha cabeça, que me deveria deixar absolutamente do avesso, não podia estar mais convicta daquilo que sinto. Precipitada fui eu ao pedir-te que não mo roubasses, quando sempre houve um lugar no meu coração reservado para ti, mesmo quando não o preenchias. Todos os meus dias valorizei a tua presença, mesmo quando era escassa, mas só agora tenho à frente da vista, vivazmente, que te amo. Amo-te e nada deste amor pode pôr em causa outro algum. E é aí, precisamente, que se encontra a linha, que mais se parece com uma corda de aço, que separa a confusão da clareza. Teremos nós que ser fieis apenas a uma só espécie de amor? Embora a sociedade o preestabeleça, a mim, não me parece justo. De entre sentimentos tão distintos, não vejo porque terei eu que escolher um só, se tão lealmente me entrego e me atiro a ambos.
Nunca me poderias roubar algo que já te pertence, coexistindo com outros, cada um no seu devido lugar, sem se empurrarem ou criarem disputas.

     E tu, surges em mim de forma tão pura, tão natural, tão dócil... Não quero, por nada, arrasar a coisa mais benigna que até hoje se encontrou comigo. És um alívio. Moderas todos os meus males.

Pouco doce

     Agora, sinto-te um qualquer sentimento que se inquieta demasiado para ser considerado desprezo, uma raiva com falta de expressão, travada pelos resquícios de saudades que as memórias não me escondem.
     É derivado da forma como te sinto, que num estado vacilante solto a acusação, numa indubitável afirmação. Talvez nem te possa tornar nesta vil personagem, nem tenha o direito de pôr nos teus braços incoerentes tais infâmias. Mas faço-o, e faço-o de pés juntos e queixo levantado.
     Roubaste-me a segurança que sempre julguei ter e afugentaste toda a saúde que se pressupõe como base para uma relação.
     Agora, ando à deriva, entregue ao peso esmagador das minhas reflexões arriscadas, a nadar em más perceções. A precisar. A precisar. A implorar.