O que me ofende não é a forma como te estás a sentir. O que fez saltar o desespero dos meus olhos não foi o que eu já te estava a prever. O que deixou escapar a minha indignação não foi o sentimento daquilo por que já passei mas a tua representação dele mesmo.
Se me desses tais palavras na cara, na agitação da minha confissão, embora também me entristecessem, eu compreenderia a tua frustração como se sempre tivéssemos vivido numa empatia mútua. Mas tais palavras acompanhadas do lugar onde te encontravas, só me remetem para a humilhação, não só vinda de ti mas também te todos aqueles que te seguem e que te sugerem.
Alguém me deu a dádiva da retidão, quer esta esteja de acordo comigo ou com outrém. Mas mais à superfície, encontra-se o egoísmo humano: duvido que haja alguém capaz de colocar a felicidade de outros defronte da sua própria, exceptuando a felicidade daqueles que ama incondicionalmente. Partindo de que ninguém tem tal faculdade, não me podes acusar de imoral, pois de todo este conflito escolhi a opção que maior felicidade proporcionava. Visto que a dos três era algo inatingível, sendo em especial a tua de difícil alcance (para não dizer impossível como resultado deste dilema), vale mais a felicidade de dois do que a angústia de três. Contudo, o meu agir em conformidade com meus próprios interesses, por coincidência correspondente à solução mais agradável, pesa-me na consciência; sinto-me tentada e incapaz de ceder à minha antiga existência no mundo. Os meus pêsames opõem-se à justiça, mas não a derrotam. Não me sinto criminosa de um saqueamento, não queiras anunciar como teu aquilo que há muito que não te pertence.
Ponho-me na tua posição, revivendo estares indesejáveis, entendo a tua raiva e desconsideração até ao ponto em que a senti. Avaliando a situação imparcialmente, eu sofri em silêncio a minha desventura, terei arrumado e guardado toda a fúria e ódio dentro do meu estômago e dos meus pulmões, até que esses pesares fossem aniquilados e expelidos pela resignação, como se de um golpe de ar residual se tratasse. E bem podes crer que funciona, a raiva é uma emoção passageira, e logo se vai dissipando. Tendo em conta mais do que a preocupação comigo mesma, nunca te dedicaria tais palavras, que ferem, que me ressentem e que me desgastam e tiram o apetite. A tua pureza e a tua amigável natureza acabaram de fugir da minha base de ferramentas dos conceitos.
Não esperava isto de ti. Não esperava que mo exibisses e que mo fizesses questão de exibir, esperava apenas que o sentisses e que, quanto muito, o deixasses transparecer. Pedes-me coisas que nem tu sabes fazer.
"Adeus, boa sorte, vais precisar".
"duvido que haja alguém capaz de colocar a felicidade de outros defronte da sua própria, exceptuando a felicidade daqueles que ama incondicionalmente." Bingo
ResponderEliminar"não queiras anunciar como teu aquilo que há muito que não te pertence." Não dei conta de alguma vez o ter feito.
"a raiva é uma emoção passageira, e logo se vai dissipando." NUNCA senti raiva, apenas desilusão, solidão, e muita dor.
"Não esperava isto de ti." Talvez assim percebas como é.
Com o tempo, irás tornar-te irrelevante aos meus olhos, e até lá, é resistir. Não me vou deixar levar outra vez, isto existe para além de ti. Mas fizeste-me crescer, deste-me determinação e alento para seguir com a minha vida, só não esperes voltar a fazer parte dela. Tenho saudades tuas, sim, mas não se comparam às saudades que tenho do resto.
"Há um lugar para ser feliz além de Abril em Paris." Só me resta encontrá-lo.