Mundo Perigoso

Um dia, gostaria de te perguntar, "quantas vezes por dia pensas em mim?"

     Porque afinal de contas, sou eu que passo cada minuto do meu dia a pensar em ti, literalmente. Sou eu que, há mínima coisa que observe ou caminhe perto vá instintivamente relacioná-la, interligá-la contigo. "Ele diria isto..." "Ele faria isto..." "No outro passei aqui com ele, e...". Não sei se será da nossa convivência tão alargada e de longo prazo, mas por onde quer que passe, há sempre qualquer coisa por contar.
     Sou eu e só eu que, a cada passo que dê, analiso e inspecciono cada consequência que esse passo, por mais diminuto ou insignificante que seja, possa trazer para ti, para nós. Vives no meu pensamento, a toda a hora, a todo o segundo, sem nunca descansares. Cada coisa que faça, cada coisa que diga; estás lá.
     Não há nada mais que me preencha como tu o fazes. Nem sei se te devo agradecer, porque, claro que é absolutamente agradável fechar os olhos e olhar para ti, mas, como sabes, pode trazer-me amarguras para o futuro, um futuro sem ti, que espero que não exista, embora a vida não seja como uma conto que termina sempre alegre, com acontecimentos fantásticos e pouco credíveis na vida real; e eu tenho que estar preparada.
     Por momentos, chego mesmo a acreditar que eu, digo, esta pessoa em que me tornei, não dependendo da minha vontade ou talvez acarrete um pouco de culpa, seja apenas tu. Sim, eu ser tu, dos pés à cabeça. Portanto, vendo as coisas deste modo, se um dia me abandonares, esta pessoa deixa de existir, ficando eu (que não serei eu) à deriva neste mundo perigoso.

Como as ondas

     Torna-se difícl de crer que, depois de tudo isto, tudo o que já passei e, aparentemente, tinha já ultrapassado, esteja novamente e inacreditavelmente a emergir. Faz-me lembrar um ciclo vicioso do qual nunca me poderei ver livre.
     Sim, hoje tenho medo, hoje voltei a tornar-me no vulto, porque hoje observo-me apenas como um vulto, sem definições ou conteúdo, naquele vulto que antes fui, vulnerável e dorido que sofre do receio que, no entanto, nem sequer precisa de ter razões para a sua existência. Só gostaria de vomitar esta pessoa desconhecida, porque não creio que esta seja eu, vomitá-la e abandoná-la, por aí, no chão sujo de uma qualquer rua escura e pouco percorrida.
     Sinto-me revoltada, é a palavra certa. Porque tenho eu que ser a metade (e sendo uma metade) inferior e deficiente? Como se não tivesse o poder de decidir, escolher, optar. Simplesmente tenho que me limitar a seguir o que a outra metade, predominante e influente, ordena, e quer para si. Porque a única coisa que a metade mais pequena quer, o que eu quero, é ser inteira e completa. Sendo assim, estarei eternamente disposta a ser completada, disposta a formar um conjunto, sempre que a outra metade quiser regressar, depois de me ter deixado. Não é justo, mas terá que ser assim, se quero uma vitória.


É tão bom saber que me queres.
É tão mau saber que me queres, como nunca o desejaste; anseias por me ver, por me sentir e por me possuir, esperas impaciente pelo meu toque, pelos meus olhos e sorriso maravilhados sempre que te têm em cima. Tão mau por saber que não durará, por saber que daqui a escassos tempos tudo será em vão.

Oh, tão bom e tão mau que és, amor à distância.



E sabes que mais?

     Já consegui ultrapassar uma metade daquilo que se passou connosco. Já consigo olhar para trás e observar o meu sofrimento insuportável sem que ele volte a invadir a minha sanidade mental. Deixou de ser uma memória proíbida, transformou-se, como é a sua metamorfose habitual, numa experiência de vida, isenta de dor, apenas presente para enriquecer a nossa pessoa, que se vai moldelando através das mesmas.
     Já não sinto tua falta como dantes, extrema e exageradamente, o que não significa que, num ou noutro dia menos bom, não sinta saudades da tua presença infinita, de todos os bons momentos que gozámos, dos nossos tempos imaturos. Mas é isso mesmo que eles são, imaturos. Não voltaria atrás para vivê-los de novo. Aliás, sinto-os totalmente distantes daquilo que sou agora, da minha nova forma de vida, recordo-os como um sonho, longe longe da realidade. Como se tivesse vivido presa na escuridão. Oh, não voltaria para esse lado, tão perfeito mas ao mesmo tempo tão superficial e sensível.
     Pois bem, cresci, é a conclusão que retiro. Adaptei-me ao que me foi impigido, criando uma nova perspectiva do meu Mundo, onde tu coexistes, mas não com o irrealismo vivido um passo ao lado.

     A outra metade, bem mais complexa e entranhada, terá que ser ultrapassada com o tempo, com a repetição, com o hábito, conforme satisfizeres a minha vontade!

PUFF, catrapum

Um choque, uma explosão
O meu coração parou e congelou.

     Após o meu frágil e gasto bombeador de sangue falhar duas ou três batidas, enquanto a minha consciência se fundia com a ténue e entranhada inconsciência, gritava bem alto e em pânico, gritava porque lhe doía, gritava porque tinha medo.
     Como se estas lamúrias aflitas me conseguissem conter, pois bem, foram inúteis. Tudo em mim desabou. E são estes os mais fatigantes dias do meu quotidiano, em que tudo o que foi compressado fortemente e contido, num ápice, explode abruptamente. Como um castelo de cartas levado pelo vento...
     Os músculos que, tão gentilmente lutaram por se soltarem da tensão, da pressão do passado vivido, apenas numa fracção de segundos, prenderam-se e enrolaram-se, como se num frágil nó de cabelos, ficando depois pesados e doridos.
      Senti-me corar, senti as minhas faces escaldantes tornarem-se carmesim. O sangue que circula por todo o meu corpo deverá ter descrito uma volta inteira desde os pés à cabeça, visto que antes me encontrava isenta de cor (terá ele fugido do "baque" do meu coração), e voltava agora de regresso às minhas ligações cerebrais.
     O quente que tinha chegado, trouxe também consigo o suor que já quase me escorria pela cara, senti-me aprisionada, como se estivesse encafoada dentro de um microondas, em que eu própria emitia radições sobre mim mesma, radições que são o reflexo de tudo aquilo que se desmontava e que me questionava o porquê de tanta desorganização.
     Não tardou até ter que me levantar, pesarosamente, para correr pelo corredor escuro, de destino a um lugar mais seguro, onde pudesse deixar que me abatesse sob o peso do meu próprio pensamento. Pondo os músculos estácticos e inflectíveis em prática, tive que correr com o risco de estes trémulos me falharem e tropeçar. Exigiu esforço.
     Na verdade, as lágrimas furiosas pareciam não se contentar com os olhos, vindo então invadir-me e escoar-me incessantemente pela cara, felizmente, já estava a salvo, consequência de uma corrida rápida, embora aos sulavancos.
     Finalmente, pude deixar fluir todas as emoções que sofria, perante os meus sentidos ao máximo despertos. Os diversos sentimentos que me atravessaram atropelavam-se uns aos outros, chocando, competindo, resultado: ficaram incapazes e atrofiados.

Agora, restava-me dominá-los, acalmar a alma, e aguardar até que o gelo torne a voltar, transformando o meu corpo floresta tropical, húmido e abafado, na humidade fria de uma manhã de outono. Deixei-me entregue aos soluços intercalados por tremores de todo o corpo, ainda dormente.