PUFF, catrapum

Um choque, uma explosão
O meu coração parou e congelou.

     Após o meu frágil e gasto bombeador de sangue falhar duas ou três batidas, enquanto a minha consciência se fundia com a ténue e entranhada inconsciência, gritava bem alto e em pânico, gritava porque lhe doía, gritava porque tinha medo.
     Como se estas lamúrias aflitas me conseguissem conter, pois bem, foram inúteis. Tudo em mim desabou. E são estes os mais fatigantes dias do meu quotidiano, em que tudo o que foi compressado fortemente e contido, num ápice, explode abruptamente. Como um castelo de cartas levado pelo vento...
     Os músculos que, tão gentilmente lutaram por se soltarem da tensão, da pressão do passado vivido, apenas numa fracção de segundos, prenderam-se e enrolaram-se, como se num frágil nó de cabelos, ficando depois pesados e doridos.
      Senti-me corar, senti as minhas faces escaldantes tornarem-se carmesim. O sangue que circula por todo o meu corpo deverá ter descrito uma volta inteira desde os pés à cabeça, visto que antes me encontrava isenta de cor (terá ele fugido do "baque" do meu coração), e voltava agora de regresso às minhas ligações cerebrais.
     O quente que tinha chegado, trouxe também consigo o suor que já quase me escorria pela cara, senti-me aprisionada, como se estivesse encafoada dentro de um microondas, em que eu própria emitia radições sobre mim mesma, radições que são o reflexo de tudo aquilo que se desmontava e que me questionava o porquê de tanta desorganização.
     Não tardou até ter que me levantar, pesarosamente, para correr pelo corredor escuro, de destino a um lugar mais seguro, onde pudesse deixar que me abatesse sob o peso do meu próprio pensamento. Pondo os músculos estácticos e inflectíveis em prática, tive que correr com o risco de estes trémulos me falharem e tropeçar. Exigiu esforço.
     Na verdade, as lágrimas furiosas pareciam não se contentar com os olhos, vindo então invadir-me e escoar-me incessantemente pela cara, felizmente, já estava a salvo, consequência de uma corrida rápida, embora aos sulavancos.
     Finalmente, pude deixar fluir todas as emoções que sofria, perante os meus sentidos ao máximo despertos. Os diversos sentimentos que me atravessaram atropelavam-se uns aos outros, chocando, competindo, resultado: ficaram incapazes e atrofiados.

Agora, restava-me dominá-los, acalmar a alma, e aguardar até que o gelo torne a voltar, transformando o meu corpo floresta tropical, húmido e abafado, na humidade fria de uma manhã de outono. Deixei-me entregue aos soluços intercalados por tremores de todo o corpo, ainda dormente.

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