Regressavas, numa aparição perfeitamente inesperada, mas ao mesmo tempo tão certa e prevista, tão sabida, que acometia toda a minha aparente convicção de que não voltarias. Regressavas, e tudo o que eu pedia e murmurava era que não me roubasses o coração. Ia repetindo e interiorizando todas as palavras, afligindo-me, dando-me conta de uma revelação ironicamente tardia, contudo, condescendia um sorriso, que não se conseguiu omitir.
Embora todo este enredo pressupusesse um furacão na minha cabeça, que me deveria deixar absolutamente do avesso, não podia estar mais convicta daquilo que sinto. Precipitada fui eu ao pedir-te que não mo roubasses, quando sempre houve um lugar no meu coração reservado para ti, mesmo quando não o preenchias. Todos os meus dias valorizei a tua presença, mesmo quando era escassa, mas só agora tenho à frente da vista, vivazmente, que te amo. Amo-te e nada deste amor pode pôr em causa outro algum. E é aí, precisamente, que se encontra a linha, que mais se parece com uma corda de aço, que separa a confusão da clareza. Teremos nós que ser fieis apenas a uma só espécie de amor? Embora a sociedade o preestabeleça, a mim, não me parece justo. De entre sentimentos tão distintos, não vejo porque terei eu que escolher um só, se tão lealmente me entrego e me atiro a ambos.
Nunca me poderias roubar algo que já te pertence, coexistindo com outros, cada um no seu devido lugar, sem se empurrarem ou criarem disputas.
E tu, surges em mim de forma tão pura, tão natural, tão dócil... Não quero, por nada, arrasar a coisa mais benigna que até hoje se encontrou comigo. És um alívio. Moderas todos os meus males.
Sem comentários:
Enviar um comentário