Culpando o inexplicável

     É azar meu que, numa feliz e ansiosa coincidência, te cruzes com os meus passos justamente quando estes, tão desajeitados, se vão trocando uns pelos outros,  indecisos e desnorteados. Justamente quando a confusão e desorientação do meu caminhar se abrevia na tua procura.
     E é azar porque, assim, já estando perdida, mais me perco. Perco-me assim que os meus olhos caiem em ti, fazendo dos meus passos perdidos nada perdidos. E é azar porque esta perdição está presa na sua dualidade: apesar das vezes em que me acalmas o corpo, vingam as vezes em que enlaças todos os meus músculos aos pés da cama.


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     Não consegui dormir. Nas quatro horas em que suportei os olhos fechados, ficaste entalado entre a pálpebra e o olho. Era um zumbido insuportável, uma dor amolecida nas pernas e outra pesada sobre as sobrancelhas. As tantas voltas que dei alimentavam o calor colado ao meu corpo e aos lençóis. O desespero acabou por se desfechar em soluços, soltando alguma coisa. Mas quase nada.

Tudo por causa do meu azar.
Só penso no meu azar.

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