Escassez de expressão

     Ao falharem as palavras, empenham-se os olhos, que, numa impetuosa absorção, apreendem aquilo com que a mente se entretém e se ofusca. Mas os olhos rapidamente se declaram inábeis e arremessam súplicas de auxílio para todo o resto que nos foi dado - lançam a batata quente para o tacto.
     O tacto, timidamente, vai soltando os seus serviçais, um braço, outro braço... a pouco, a medo, vai se entranhando, deixando a nu a sua sujeição. Mas os braços, experimentando freneticamente e esgotando as suas aprazíveis e meritórias aptidões, rapidamente se declaram pouco engenhosos, de imaginação débil, e depositam desesperadamente confianças naquilo que os seguem, apressam todo o corpo, que balança ao sabor da comoção.
     Mas todo o corpo, enfastiado das suas oscilações dessincronizadas, rapidamente se declara insaciável, todo envolto numa insatisfação desvairada. Volta-se, assim, para onde tudo começa. Sem que lhe peçam, como se tomando o controlo de todo um alvoroço infernal e desregrado, os lábios confessam a sua faceta mais doce e silenciosa.
     Mas os lábios, esses sim, não se declaram nada mais do que sublimes, tranquilizantes da agitação acomodada, indo espalhando um equilíbrio onde todas as peças, sempre escoltando quem as salvou, se emocionam numa coordenação harmoniosa. As suas voltas não são mais solavancos, são antes aragens macias, ondas deliciosas, ora rápidas e confusas, ora calmas e acolhedoras.

1 comentário:

  1. Gostei muito deste teu retrato ;)
    Descrição de um momento muito fresco para mim *

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