Sejam bem-vindos à dimensão do "estar bem"

     Já quase que me esqueço de todo o meu longo percurso, de relevo bem acidentado, fortificado com rochedos bicudos e rios com correntes atrozes, que maioritariamente atravessei com decisão e determinação (tendo, outras vezes, apenas me deixado levar pelas águas ligeiras), até atingir a planície insípida em que me encontro hoje.
     É com desgosto que me revelo, em contraposição ao meu acostumado ser, inimiga da estabilidade (ou, pelo menos, assim entendo a minha descontentação com a situação em que estou). Em toda a minha vida me julguei fã de um amor rotineiro, sem alternâncias de sentimento, apenas com pequenos sobressaltos que salvam o dia-a-dia insonso. Pois bem, estes meus dias me haverão tirado desta minha conceção.

     Habituei-me, como resultado do que se tem sucedido, a viver numa inconstância que acreditava ser insuportável, num mar de ondas que ora vinham, ora se sumiam. Numa alternância de sentimentos que se abatiam sobre mim, deixando-me, no fundo, mais desperta, com todas as sensibilidades à flor da pele. Percebo agora que me acostumei a tal estilo de vida. Afeiçoei-me ao meu coração arrebatado, aos meus pulmões ardentes, ao sangue que fervia ao deslocar-se velozmente, rebentando as veias, rasgando a pele, torcendo os músculos. Agora, deixando de fazer o papel da parte mais fraca, com o justo equilíbrio de uma relação, vivo num ambiente eternamente amenizado e acanhado. Vivo numa dormência, que ocupa o suposto lugar da saúde. Outrora desperta, agora adormecida.
     A questão é, será que é só para agora, neste amor que já se apresentou em tantas variantes, ou será com tudo e todos os que vierem. Custa-me aceitar este desvanecimento do meu apreço por um amor eternamente aceso e homogéneo, livre de quaisquer paixões efémeras e imaturas.


Talvez seja só eu, seduzida pela vontade de experimentar algo novo, farta da anestesia em que me encontro, enlevada pelos devaneios alimentados durante a noite, procurando a frescura de inesperadas identidades.

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