É com desgosto que me revelo, em contraposição ao meu acostumado ser, inimiga da estabilidade (ou, pelo menos, assim entendo a minha descontentação com a situação em que estou). Em toda a minha vida me julguei fã de um amor rotineiro, sem alternâncias de sentimento, apenas com pequenos sobressaltos que salvam o dia-a-dia insonso. Pois bem, estes meus dias me haverão tirado desta minha conceção.
Habituei-me, como resultado do que se tem sucedido, a viver numa inconstância que acreditava ser insuportável, num mar de ondas que ora vinham, ora se sumiam. Numa alternância de sentimentos que se abatiam sobre mim, deixando-me, no fundo, mais desperta, com todas as sensibilidades à flor da pele. Percebo agora que me acostumei a tal estilo de vida. Afeiçoei-me ao meu coração arrebatado, aos meus pulmões ardentes, ao sangue que fervia ao deslocar-se velozmente, rebentando as veias, rasgando a pele, torcendo os músculos. Agora, deixando de fazer o papel da parte mais fraca, com o justo equilíbrio de uma relação, vivo num ambiente eternamente amenizado e acanhado. Vivo numa dormência, que ocupa o suposto lugar da saúde. Outrora desperta, agora adormecida.
A questão é, será que é só para agora, neste amor que já se apresentou em tantas variantes, ou será com tudo e todos os que vierem. Custa-me aceitar este desvanecimento do meu apreço por um amor eternamente aceso e homogéneo, livre de quaisquer paixões efémeras e imaturas.
Talvez seja só eu, seduzida pela vontade de experimentar algo novo, farta da anestesia em que me encontro, enlevada pelos devaneios alimentados durante a noite, procurando a frescura de inesperadas identidades.
Sem comentários:
Enviar um comentário